Ano novo: uma oportunidade de mudanças
- Hilda Franchi

- Jan 14
- 3 min read

Todo início de ano traz consigo uma sensação curiosa: uma mistura de esperança, expectativa e, às vezes, um certo peso. A ideia de “recomeçar” pode soar inspiradora, mas também pode gerar frustração quando lembramos de tudo o que não conseguimos mudar antes.
Mudanças não dependem de datas perfeitas. O ano novo não é mágico, ele é simbólico. E símbolos têm força justamente porque nos ajudam a pausar, refletir e escolher com mais consciência o próximo passo.
Neste artigo, quero te convidar a olhar para o ano novo não como uma cobrança por transformação radical, mas como uma oportunidade prática de ajuste de rota.
Por que mudar é tão difícil?
Do ponto de vista psicológico, mudar exige energia mental. Nosso cérebro gosta do conhecido, mesmo quando o conhecido não é confortável. Hábitos antigos economizam esforço, enquanto comportamentos novos pedem atenção, constância e tolerância ao desconforto inicial.
Além disso, muitas pessoas confundem mudança com motivação. A motivação oscila. Já o que sustenta mudanças reais é estrutura, clareza e repetição — princípios bem estabelecidos na psicologia baseada em evidências, especialmente na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).
Mudança sustentável não começa com força de vontade
Um erro comum no início do ano é apostar tudo em força de vontade. Ela ajuda, mas não sustenta. O que sustenta mudanças é:
Metas realistas
Ambiente favorável
Autoconhecimento
Estratégias claras
Abaixo, compartilho algumas ferramentas práticas que você pode começar a aplicar desde já.
1. Troque metas vagas por metas observáveis
Em vez de:
“Quero cuidar mais de mim”
Experimente:
“Vou caminhar 20 minutos, 3 vezes por semana, durante o próximo mês.”
Pergunta-chave: Se alguém estivesse me observando, conseguiria perceber que estou fazendo isso?
Se a resposta for não, a meta ainda está vaga.
2. Pense em pequenos passos (e leve isso a sério)
Mudanças consistentes acontecem em escala pequena. Pequenos comportamentos, repetidos com frequência, criam resultados grandes ao longo do tempo.
Exemplo:
5 minutos de organização por dia
10 minutos de leitura
Uma escolha alimentar mais consciente por refeição
Pequeno não é pouco. Pequeno é estratégico.
3. Observe seus pensamentos sabotadores
Muitas tentativas de mudança falham não pelo comportamento em si, mas pelos pensamentos automáticos que surgem no caminho:
“Já falhei antes, então não adianta tentar.”
“Se não for perfeito, não vale a pena.”
“Agora não é o momento ideal.”
Ferramenta prática: Quando perceber um pensamento desses, pergunte-se:
Isso é um fato ou uma interpretação?
Que evidências reais eu tenho contra e a favor desse pensamento?
O que eu diria a alguém que gosto se estivesse pensando assim?
4. Planeje o obstáculo, não só o objetivo
Pessoas que conseguem mudar não são as que não enfrentam dificuldades, mas as que se preparam para elas.
Exemplo:
Se eu chegar cansada e sem vontade, então farei apenas 5 minutos.
Se eu pular um dia, então retomo no dia seguinte sem me punir.
Esse tipo de plano reduz a chance de desistência diante do primeiro tropeço.
5. Substitua autocrítica por ajuste de rota
Fracassar não significa que você é incapaz. Significa apenas que a estratégia usada não funcionou naquele contexto.
Troque:
“Eu nunca consigo manter nada.”
Por:
“O que posso ajustar para que isso fique mais viável para mim?”
Mudança não é um teste de valor pessoal. É um processo de aprendizagem.
Ano novo não exige uma versão perfeita de você
Talvez este ano não seja sobre se tornar alguém completamente diferente. Talvez seja sobre viver com mais coerência, mais gentileza consigo e escolhas um pouco mais conscientes do que antes.
Mudanças verdadeiras não fazem barulho. Elas se constroem no cotidiano, em decisões simples, repetidas muitas vezes.
Se você sente que precisa de apoio para entender seus padrões, lidar com a autocrítica ou construir mudanças mais consistentes, a psicoterapia pode ser um espaço seguro e estruturado para isso.
O ano novo é só o começo. O caminho se faz passo a passo.


